Os cuidados com a estatística

11/09/2020

Todo mundo tem um amigo ou familiar que passou por um tratamento de câncer ou está passando. Conhecer as experiências e a forma como as pessoas reagiram a todos os procedimentos é importante e muitas vezes inspiradoras. Contudo é preciso ter muito cuidado no relato dessas experiências, para que elas não sejam invisibilizadoras dos desafios que cada pessoa passa dentro do seu universo particular.

Uma febre mais forte pode ser devastadora para quem passa pela experiência, tudo depende de como essa pessoa está emocionalmente, se ela tem ajuda para se curar, se há dor no corpo ou mil outras variáveis. O bem estar é uma complementação física e emocional positiva diante das situações que estamos lidando e não é porque o diagnóstico de uma doença é mais ou menos grave que outras doenças ou casos semelhantes, que ela perde ou ganha importância.

O primeiro momento que eu lidei com a estatística foi com as tentativas de me consolar dizendo que muitas pessoas possuem câncer no mundo atualmente, que eu não era a única. Interessante, eu não fico feliz em saber disso, na verdade fico bem triste. Seja porque estamos vivendo mais ou porque estamos ingerindo cotidianamente alimentos altamente cancerígenos, a população está adoecendo e tirando partes do seu corpo na tentativa de sobreviver. Essa estatística me abala.

Em especial porque a maioria das pessoas não tem condições de cuidar do câncer como seria o ideal. Por um benefício do destino eu descobri a minha doença num momento em que eu tenho um bom plano de saúde e a capacidade de cobrir financeiramente os custos dos tratamentos que não são tradicionalmente cobertos. Existem vários cuidados complementares que não são custeados, agora imagina aquelas pessoas que não possuem as mesmas facilidades que eu?

Até 2018, as mulheres que dependiam exclusivamente do SUS não tinham necessariamente seus seios reconstituídos, apesar da lei que trata do tema ser originalmente de 1999. Foi a Lei nº 13.770/18 que obrigou o Sistema Único de Saúde (SUS) a realizar a reconstrução dessa importante parte do corpo feminino como forma de atingir a dignidade da pessoa humana. Porém, a realidade é que muitas pessoas que sofrem dessa doença só conseguem ter acesso a uma parte do tratamento.

Outra situação muito comum são as comparações do tratamento que a pessoa ajudada está tendo com a experiência de amigos e parentes. Há muita vontade de ajudar da pessoa que compartilha esses casos, porém é importante lembrar que os casos conhecidos são exemplos. São histórias de pessoas, que remontam aspectos pessoais e histórias singulares, as quais estão repletas de experiências, formação, medos e aflições pessoais. Além disso, e isso é muito relevante, o mais comum é as pessoas não compartilharem todos os perrengues que passam nessa trajetória.

Não é comum que pacientes oncológicos, por exemplo, cheguem no meio de uma conversa e comecem a relatar que sofreram uma punção no peito sem anestesia e que aquilo doeu no corpo, mas também na alma. Eu, por exemplo, fiz isso com as pessoas que me perguntaram diretamente e porque eu não tenho problema em falar desses desafios, porém esse não é o habitual. O tratamento de cada caso é composto de detalhes diários, que são duros e que para uns atingem mais que a outros, o que envolve tanto o aspecto físico quanto o emocional, mas que não retiram a dificuldade de lidar com cada novidade que aparece.

Não me incomodo que as pessoas me contêm as histórias que elas conhecem, ao contrário, são aprendizados. Contudo, gosto que a pessoa que o faz lembre que na sua frente há alguém singular, que não quer ser identificado com mais um número dos diversos casos de câncer existentes. A retirada de uma parte do corpo tem diferentes significados para a pessoa que o retira, assim como a quimioterapia pode gerar efeitos diferentes em quem passa por ela.

A probabilidade de "cura", ou melhor, de não falecimento é grande, porém ela não minimiza o desafio que é para chegar nesse estágio. O câncer é uma doença silenciosa, que exige muito de quem passa por ela.

A quimioterapia, por exemplo, pode ser leve em alguns casos e os sintomas serem pouco sentidos. O mundo ideal para quem passa por isso! Em outras pessoas pode gerar efeitos colaterais sérios, dentre os quais a queda de cabelo é apenas um detalhe.

Eu precisarei passar por cerca de seis meses de quimioterapia, isso não é pouco tempo e nem é rápido. Existem pessoas que passam mais tempo por isso, eu gostaria muito que elas não precisassem passar por isso. Contudo, o fato delas passarem por mais tempo não significa que seis meses é pouco tempo, apenas que os nossos desafios são diferentes.

As vezes os números ajudam, mas nem tudo pode se tornar uma estatística. No momento do acolhimento, uma mesma frase pode ser dita de diversas formas, cuidar das palavras é também cuidar da dor do outro e expressar o seu carinho.

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